domingo, 13 de maio de 2012

# 2 | Desafio Literário [Mãe]


Porque nem sempre a maternidade é um mar de rosas e virtudes, porque nem sempre as mães são perfeitas, porque nem sempre a vida é justa. Hoje resolvi escrever sobre outra realidade da maternidade. Uma realidade nua, crua, sem amor, sem dádiva mas real. Não se escrevem cartas na terceira pessoa do singular, escreve-se com o eu na boca e o coração nas palavras.

Carta a uma Mãe ausente,

Não consigo chamar-te Mãe. És para mim somente o corpo que me carregou nove meses. Quando nasci, expeliste-me de ti como quem vomita algo estragado e de seguida lava a boca. Não me pegaste ao colo, não me amamentaste, não me embalaste no teu seio. Nove meses de fel alimentaram-me, vivi em ti como quem cumpre pena por um crime, sou o teu crime imperfeito.
Passaram muitos anos sobre o dia em que nasci, hoje sei-te morta e não me dói. Sou insensível à tua morte.
Nunca te vi o rosto, não te conheço as mãos, o cheiro, a voz. Os olhos que vejo reflectidos no espelho são meus, somente meus. Sou a incógnita de uma existência. Nasci e estou viva mas algo em mim jaz morto.
Deste-me como quem dá uma camisa usada a um estranho. Lavaste as mãos de mim e esqueceste-me. Não te interessou a minha sorte.
Hoje escrevo-te para te agradecer a ausência, não me fizeste falta mas ter nascido de ti fez-me mal, deixaste em mim a ausência nos olhos, foi esta a tua herança. Olho o mundo ausente nele, aprendi a conjugar todos os possíveis tempos da ausência. Este sentir, canta no meu sangue como um fado. Estou ausente para a vida, até um dia estar presente para a morte.

De quem não te é filha

28 comentários:

  1. É realmente uma verdade nua e crua, mas COMPREENDO muitas das tuas palavras.

    Uma beijoca carinhosa xxx

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    1. Também há realidades destas e vejo as pessoas a esquecerem-se vezes sem conta disto. Bj.

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  2. A tua carta faz-me doer o coração! Ninguém devia ter esta ausência da mãe! Mas esta é uma realidade que vejo muitas vezes, até vezes de mais!
    Ainda assim apesar das adversidades, fez-se caminho! Porque o nascimento não nos define, nem nos torna naquilo que queremos ser. Isso cabe-nos a nós. Não te sais-te nada mal!
    Um beijão e um abraço apertadinho

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    1. Faz-se sempre caminho, o nascimento não nos define mas molda-nos a todos, querendo ou não. Beso cariño.

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  3. Dói saber desta ausência...
    Beijinho

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    1. Nem tudo é feliz nas histórias da maternidade, há-as assim, infelizmente. Bj.

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  4. Doloroso ler isso... infelizmente a vida não é sempre cor de rosa.

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    1. Pois não, infelizmente as pessoas esquecem-se que há histórias diferentes.

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  5. Pois é, a vida não é perfeita.
    Beijo grande.

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  6. :( beijinho para ti...
    o teu texto toca mesmo no coração, porque vê-se que foi escrito com muito sentimento...

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  7. Por vezes a vida é mesmo uma m*****a!
    Mas há outras coisas que fazem aquecer dentro do peito, são essas que contam no final...
    Beijinhos grande e abraço hiper apertado*
    ;)

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  8. Bolas, ainda eu me queixo da minha mãe, da ausência, da falta de preocupação... e se queres que te diga sinceramente: também não me faz falta. A minha ainda está viva, mas para mim é como se estivesse junto com a tua.Belo texto, apesar de tudo.
    Bj** e boa semana**

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    1. Tanita, este foi um exercício de escrita, mas reflecte uma realidade mais comum do que muitas vezes pensamos. Felizmente as mães não definem os filhos. Bjs.

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  9. Lemon, de alguém como eu que soube o que era uma mãe digna desse nome, é complicadíssimo ler esta carta... porque sei que nem todos tiveram uma mãe digna desse nome, como eu... porque sei que esta realidade existe e isso entristece-me tanto, mas tanto...
    Beijinhos

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    1. Convém não nos esquecermos da realidade, a realidade é muitas vezes esta, muitas vezes mesmo.
      Bj.

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  10. Este texto deixou-me sem palavras! Isto não deveria acontecer nunca, mas infelizmente vivemos longe de um mundo perfeito.
    Bjinho

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    1. A vida suplanta muitas vezes a ficção.
      Bj.

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  11. Li este texto e lembrei-me da minha mãe e do que ela sofreu com a mãe dela. Felizmente não pegou no exemplo que teve e tornou-se uma mãe completamente diferente daquela que foi a sua.

    Acredito que assim será contigo.

    Um beijo grande

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  12. Ao ler o teu texto viajei até á minha infância infeliz, mas a tua foi pior ou não, ás vezes abandonar, dar a alguém é melhor, muito melhor do que maltratar. Por isso sempre quis ser mãe para simplesmente amar sem medidas.

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    1. Mamã Petra, isto não é um texto biográfico é um relato de uma realidade infelizmente real.

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  13. nem sei que dizer, é uma realidade pois é, mas é triste... no entanto não posso deixar de concordar com a mamã petra, dar é melhor que maltratar...

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